sexta-feira, 31/07/2020
Universidade do Minho
Por Luís António Santos
Docente do Departamento de Ciências da Comunicação
Soubemos há dias que a Universidade do Minho adotou (imagino que tenha comprado, porque estas coisas custam sempre dinheiro) duas novas ferramentas para a vigilância das atividades de avaliação à distância. A decisão, dizem-nos, tem por objetivo “mitigar algumas situações de fraude na realização de provas” e a duas coisas chamam-se ‘Respondus Lockdown Browser’ e ‘Respondus Monitor’.
De tanto andarmos enredados em calendários académicos que envolvem obrigações para muitos docentes em tempo de férias e afundados em sugestões de ações de formação ‘nos meses de agosto e setembro’ quase nos passa ao lado mais este passo na caminhada de transformação da universidade num espaço cada vez mais desumanizado. Uma gestão deliberadamente centralizadora e menos transparente leva-nos, de olhos vendados, a caminho de uma existência sem gente, sem meios (embora – sempre, sempre – com meios suficientes para adquirir o que interessa) e com relações humanas marcadas pela vigilância. Funcionários, docentes e investigadores já bem conhecem o ‘inferno das etapas’ no DocUM; agora sugere-se alargar a ideia do ‘olho amigo’ aos comportamentos dos alunos.
Aqueles que, no início do século passado, imaginaram futuros distópicos para a Humanidade não conseguiram sequer antecipar o poder, o alcance e os efeitos de algumas destas ferramentas que vamos incorporando numa existência que já muito pouco tem de ‘normal’.
Acredito que quem toma estas decisões não queira acrescentar dano. Mas, como sabemos da fábula do escorpião e do sapo, é difícil fugir à natureza das coisas. E a História não nos ensina diferente.